Fragmentados || Resenha

Escrito por Miaka J. S. Freitas - quarta-feira, outubro 28, 2015

"É isso que a lei é: Palpites instruídos sobre o que é certo e errado" - página 177

Preciso dizer que estava empolgada deste que vi o booktrailer do livro. Mas depois de algumas criticas de amigas leitoras que concluíram a leitura primeiro que eu, abaixei as expectativas, mas ainda mantive a empolgação.


E acho que isso foi a atitude decisiva para eu gostar do livro: não ir com sede ao pote. Preciso logo dizer que o que foi visto no booktrailer, a cena da fragmentação, que seria o suprassumo do livro, não acontece de imediato e nem é o coração do livro em si. Foi uma ótima cena para empolgar e alavancar as vendas, confesso, mas não resume em nada o que é o livro. E se tirar as impressões do que você acredita que será o livro quando vê aquele vídeo, pode dizer: o livro é totalmente diferente do que você esperará. Mas não chega a ser decepcionante, muito pelo contrário, o livro é bom, diria ótimo - mas com ressalvas!

O livro trás alguns questionamentos interessantes sobre o ser humano e a humanidade, a consciência, a alma e outros assuntos do gênero. Tudo começa com a Lei da Vida, é instituída após uma guerra, onde todos tem direito a vida, o aborto é ilegal. As crianças podem viver até os 13 anos com sua vida protegida por lei, porém ao completar 13 e desse período até a maior idade, se seus pais ou responsáveis legais optarem, podem encaminhar o individuo para a fragmentação. A fragmentação não fere a lei da vida, pois a mesma mantém a pessoa fragmentada viva, só que em partes. Bem diabólico, né?

É tipo você ser doador de órgãos, mas outras pessoas optando isso por você bem na metade de sua vida, afinal, atualmente só doa órgãos depois que a pessoa em questão falece e seus órgãos podem salvar vidas. Aqui na fragmentação tudo é aproveitado: ossos, tecidos, órgãos. Nada pode ser descartado.

Uma parte que achei interessante na Lei da Vida é a Lei da Cegonha. Como o aborto é proibido, a mãe que não quiser ficar com o filho recém nascido, pode abandonar o mesmo na porta de uma casa. A pessoa que achar o bebê se torna legalmente responsável pelo menos, mas se a mãe biológica for pega no ato, ela terá que ficar com a criança. Achei interessante essa perspectiva e como ela foi mostrada no livro pelo personagem Connor, quando sua família recebeu um bebê pela cegonha.

Todo o livro mostra o quanto humanos são egoístas e mesquinhos. O quanto pensamos em nosso próprio umbigo e facilmente esquecemos do próximo, mesmo quando somos extremamente religiosos. Outro ponto interessante do livro: a perspectiva da religião sobre a fragmentação. E isso é trabalhado pelos olhos de Lev. Lev é um dízimo. Um dízimo real, a ironia em dizer que ele é o décimo filho de uma família e deste que nasceu conhece sua missão grandiosa no mundo: ser entre como dízimo para ser fragmentado e ajudar a sociedade. A lavagem cerebral da família e do pastor é tão grande em cima das crianças que são consideradas dízimos que a entrega é de corpo e alma para essa missão dita por um deus que aceita a fragmentação das pessoas.

"Uma Pessoa não tem alma até que ela seja amada." - página 178

Outra parte que gostaria de frisar é o jeito que é tratado a consciência de um fragmentado. O livro mostra todo tempo, que apesar do jovem ter sido fragmentado em milhões de partes e espalhadas em várias pessoas, a consciência dele ainda pode está viva. Deste de membros que tem "personalidade própria" e repete movimentos que faziam quando eram um só corpo; deste de partes do cérebro conter ainda fragmentos de lembranças do antigo individuo que foi antes de ser repartido. E o ápice disso no livro é a pequena história do Cy-fy.

O livro retrata a luta pela sobrevivência dos jovens destinados a fragmentação e que por mais que sejam os mau vistos pela sociedade e talvez nunca tenham sido amados pelos pais, eles só tem um sentimento: querem viver.

******* Considerações Finais ********

O que mais chamou atenção no livro é o jeito que o assunto é tratado. Ele não é um thriller de terror/suspense como o vídeo promocional sugeria (a cena da fragmentação lá descrita só acontece perto do final do livro), mas sim é um livro um pouco dramático que mostra a perspectiva de como os humanos só pensam em beneficio próprio e esquece do próximo.

"Duas Coisas são infinitas; o universo e a estupidez humana; mas quanto ao universo eu não tenho certeza" Albert Einsten - página 319

Acho engraçado essa atitude de humanos, que se acham tão racionais, mas é a única espécie de animal que mata seu semelhante. Que é individualista mesmo vivendo em uma sociedade. O quanto essa lei foi feita como forma de poder se desfazer facilmente do que seria um grande problema na sociedade e de forma que muitos acreditariam ser o melhor jeito, beneficiando a comunidade. É um livro carregado de reflexões, frases que te fazem pensar e refletir sobre o que é ser humano, sobre a atualidade do mundo que vivemos, se estamos caminhando pra um caminho bom e até mesmo como será nosso futuro. Afinal, do jeito que caminha o mundo atual, não duvido nada de uma coisa assim acontecer na vida real.

O livro não trata da fragmentação em si, mas sim dos fragmentários: aqueles jovens que estão destinados a serem fragmentados. O livro conta a história de três jovens que fogem desse destino assim que soube: são eles o Connor, a Risa e o Lev.

No livro, você acompanha pelo ponto de vista desses três principais, o que é um ponto positivo do livro, afinal, o livro é narrado pelos personagens, com pensamentos, impressões e cada um deles vão se complementando. No decorrer da narrativa, entra mais personagens (já que esses três protagonistas entram em contato com outras pessoas durante o caminho de fuga) e alguns chegam a ser importantes para ganhar capítulos onde a visão da história é por eles também. A história principal do livro segue linear, mas é fragmentada entre cada personagem e conhecemos um por um, seus medos e anseios, seus desejos e suas opiniões, o que faz com que aproximamos deles. E essa é mais uma parte legal do livro: ele é fragmentado.

Apesar de tudo isso, quando o livro vai chegando perto de seu  desfecho, deixa de preencher várias lacunas. Quando o objetivo central do livro parece ser acompanhar os protagonistas e saber se os mesmos sobreviverão esses tempos e fugirão da fragmentação, no final o livro não nos mostra de fato e deixa muita coisa em aberto. O que aconteceria com Lev, a importância do Cy-fy na sociedade, Connor e Risa e o resto do pessoal do cemitério. Desconfio que tais lacunas foram feitas para dá uma abertura a uma possível continuação, afinal, parece que autor aprendeu a palavra continuação e ninguém mais sabe fazer livro de história fechada em um único volume (que dá até raiva porque tudo vira série). Porém, se um dia isso vim a ser realmente uma série, infelizmente não há muito a se trabalhar para outro livro desse naipe. É o típico livro que não funcionaria em ser saga, mas sim apenas um único livro.

No fim, também achei que ele poderia ser uma utopia diatópica, mas isso deixo para uma outra discussão. 

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